Igreja de Tangará da Serra realiza palestra sobre a campanha Maio Laranja
AD Tangará da Serra promoveu uma palestra aberta à comunidade voltada para a campanha Maio Laranja
Palestra aberta à comunidade voltada para a campanha Maio Laranja
A Igreja Assembleia de Deus Ministério de Madureira, em Tangará da Serra (MT), promoveu no último domingo uma palestra aberta à comunidade voltada para a campanha Maio Laranja, que combate o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes. O evento reuniu pais e filhos para debater a importância da prevenção e da proteção infantojuvenil.
Orientação e Prevenção nas Escolas
A principal palestrante foi a psicóloga clínica e professora universitária Gleice Kelly Silva. Mestre em Psicologia do Desenvolvimento e do Adolescente e especialista em Educação Inclusiva, a profissional — que também atua no ministério infantil da Igreja Batista Vila e em um projeto social local — destacou o trabalho preventivo que desenvolve na região:
"Nós temos ido até as escolas para orientar professores, realizar capacitações e também conversar com as crianças sobre a prevenção do abuso."
Gleice explicou que a metodologia do evento dividiu os adultos e os menores em momentos específicos para que a mensagem fosse transmitida de forma adequada a cada público:
"Essa metodologia é importante porque as crianças precisam receber essa orientação com o objetivo de identificar as possibilidades de ocorrência do abuso. Posteriormente a isso, nós também temos que falar com os pais. À medida que as crianças identificam e comunicam, elas precisam da validação, do encaminhamento e das medidas protetivas dos pais. E isso vale não só para os casos em que o abuso já possa ter ocorrido, mas principalmente para a prevenção. Os pais precisam saber prevenir e identificar os riscos que a criança pode apresentar. Quando fortalecemos a família, diminuímos a incidência de abuso sexual ou conseguimos evitar a sua ocorrência."
O Papel Espiritual e Social da Igreja
De acordo com a psicóloga, as instituições religiosas desempenham um papel fundamental ao proteger a integridade física e mental dos fiéis, trabalhando o indivíduo de forma integral:
"A igreja tem um papel importantíssimo na prevenção, visto que trabalhamos com as crianças e com a vida dos nossos membros. Entendemos o ser humano em sua dimensão integral: corpo, alma e espírito, e a Palavra do Senhor nos recomenda cuidar de todas essas dimensões. O abuso sexual vem contra o corpo e afeta diretamente a alma e o espírito. A longo prazo, a pessoa adoece mentalmente, entra em situações que a afastam da condição espiritual ligada a Deus e acaba caminhando para um lugar de sofrimento psicológico. Posteriormente, alguém nessa condição precisará de apoio psicológico e espiritual. Por isso a importância da prevenção. Se prevenirmos aqui, juntamente com a sociedade, teremos uma comunidade com pessoas mais saudáveis. A igreja estará sendo efetiva no sentido de impedir esse tipo de crime e de pecado."
A visão é compartilhada por Daniela Lima, integrante do ministério infantil da Assembleia de Deus local, que reforçou o posicionamento ativo da liderança diante da temática:
"Estamos no mês de maio, período de conscientização e proteção às crianças e adolescentes. Como igreja do Senhor, não podemos ficar neutros em relação a um assunto tão importante e delicado. Somos uma igreja que se posiciona diante dessa temática e precisamos cuidar do bem-estar dos nossos pequenos. Por isso, todos os anos buscamos realizar ações para orientar a comunidade. A melhor forma de prevenir abusos é através da orientação transmitida por pais, professores e por toda a igreja."
Aprendizado Lúdico para os Filhos
Para os pais presentes, o evento trouxe ferramentas práticas para o dia a dia. Aparecida, mãe de Lana (7 anos) e Arthur (12 anos), ressaltou a clareza da abordagem para diferentes faixas etárias:
"Foi um evento muito importante porque aprendemos como passar esse assunto para as crianças. Como já foi falado, é um tema delicado e pesado. Tenho uma menina de 7 anos e um menino de 12. São faixas etárias diferentes, então precisamos ter um diálogo aberto e adaptado à idade de cada um. Sempre há algo novo para aprender, e a psicóloga abordou o tema de forma muito clara, nos ensinando a transmitir isso para os nossos filhos. Há momentos em que as crianças não estão conosco, como na escola e em outros ambientes, por isso é fundamental ensiná-las a se defender, a entender o que está acontecendo e a nos comunicar."
Um dos destaques da palestra foi a dinâmica do "Semáforo do Corpo", que ensina os menores a identificarem visualmente as partes que podem ou não ser tocadas de forma simples.
"A dinâmica é muito importante pela forma lúdica, permitindo que eles compreendam perfeitamente. Mostra que o nosso corpo funciona como um semáforo, com as luzes vermelha, amarela e verde, indicando quais partes são permitidas tocar e quais não são", pontuou Aparecida.
Família como Prioridade
Encerrando as diretrizes do evento, o presidente do campo de Tangará da Serra, pastor Divino Camilo de Paiva, relembrou que a conscientização é um trabalho contínuo desenvolvido pela igreja há anos, sempre em parceria com profissionais da área:
“Realizamos o evento Maio Laranja há alguns anos, trabalhando através da orientação de psicólogos, líderes do ministério infantil e de todas as pessoas envolvidas no projeto. O objetivo é conscientizar adultos e crianças sobre o abuso e o assédio infantil, algo que é de suma importância. Se preservarmos as crianças hoje, elas serão adultos de bem na sociedade.”
O pastor concluiu convocando as famílias, a comunidade cristã e o poder público a manterem o foco absoluto na proteção da infância:
"A própria igreja deveria priorizar 100% esse trabalho. Não apenas as igrejas estão engajadas, mas também o poder público, através de seus órgãos, tem atuado nisso. A família é um projeto de Deus e ela tem que ser prioridade."
Realidade nacional acende alerta
As ações locais de conscientização, como a realizada em Tangará da Serra, refletem uma necessidade urgente em todo o país. Segundo dados oficiais da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o Disque 100 registra anualmente mais de 100 mil denúncias de violações de direitos humanos contra crianças e adolescentes no Brasil, sendo a violência sexual uma das ocorrências mais frequentes e alarmantes.
Complementando o cenário, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, principal balizador estatístico do setor no país, aponta de forma consistente que a maior parte dos crimes de estupro de vulnerável é cometida contra vítimas na infância e pré-adolescência. Os relatórios oficiais acendem um alerta ainda maior para as famílias: em mais de 80% dos casos registrados, o abuso é praticado por familiares ou pessoas próximas e de confiança da vítima, ocorrendo dentro do próprio ambiente doméstico.
Os canais oficiais reforçam que a subnotificação ainda é um desafio e que qualquer suspeita ou confirmação de abuso deve ser denunciada imediatamente de forma anônima e gratuita pelo Disque 100, ou diretamente ao Conselho Tutelar e às autoridades locais.